SUBMEN

Photo by © Carlos Ferreira

(sem assunto)

Por favor, eu preciso de sua ajuda meu marido depositou 7,5 milhões de libras com um banco quando ele estava vivo. Eu estou sofrendo de câncer de esôfago, você pode me ajudar a dublê como meu beneficiário e recolher fundos para financiar organizações de caridade.

Pega ele, Nigel

Fig 2. Pega ele, Nigel.

Atrocidades Modernas

Eu li sobre o apocalipse durante o último final de semana do verão de 1997. A cada página meu coração soluçava apresentando diversas alterações eletrocardiográficas. Era um esforço anormal virar as folhas. O romance em questão se chamava “Atrocidades Modernas”, de Paulo Becker, e certamente não agradou a crítica especializada, muito menos aqueles desinteressados em rocamboles narrativos desfigurados livremente.

Mesmo assim, alguns leitores vorazes toparam criar um grupo de leitura e me convidaram para fazer parte. Achei ok e aceitei. Eu não tinha nenhuma razão para não me engajar nessa atividade. Além disso, eu considerava o livro especial e queria muito me aprofundar nas ideias do autor. Dessa forma, digamos, eu explicitamente entrei para o grupo “Atrocidades Modernas”.

Segue um grotesco excerto do livro:

“Quando uma fórmula considerada hipoteticamente verdadeira começa a ser escrita entendemos o que vem a seguir como sendo o resultado de uma matriz com sistema lógico baseado em um conteúdo e um discurso coerente. Isso quer dizer que estamos andando ao redor de colunas conceituais de pura elegância e rigor. Assim, dentro desse plano perspectivo, e com esse tipo de linha argumentativa como aríete, estamos prontos para desvendar o mundo real, natural e físico. Nossas ferramentas, então, são a lógica, a razão e a coragem. Como dizia o ancestral humano, “um mergulho no lago naturalista não pode e não deve nos desanimar”. Somos protagonistas dessa História. Temos o poder de domá-la através de nossa retilínea perseverança. Da mesma forma que o fio da navalha fatia a carne, o verbo segrega a vida em dois planos de existência prospectando ambos em direção a uma nova e terceira existência. Esse verbo Gilette atua contra a falácia na intenção de romper a barragem que bloqueia a visão. Sabemos que essa lâmina é capaz de dividir o átomo tamanha sua potência destruidora. Entretanto, também, é capaz de atrair e agregar bilhares de naturezas e seres humanos, pois em nossos corações não há mais espaço para o metafísico nem, no obstante, para o transreal. Encaramos tudo como irrelevante quando optamos pelo processo seletivo baseado na competição. Gostaria de finalizar dizendo que a deslogicização de nossa sociedade manifestada na vultuosa e desvairada soma de medos, não deve nos assustar, tampouco deve causar perturbação. Ao contrário, ela deve ser dilacerada pelo o fio da espada e esmagada pela pureza infinita do que é Serto.”

No lábio de lebre há potência

c/ bigode

Júpiter do Cronenberg


LIVRO/indício #4



A sensação aquela, do mero estável e do lado inverso, de várias vidas sobrepostas requer paciência, pois sofre para estabelecer uma relação já morta. Esse tipo de estratégia, de re-e-encenar um indigesto mortífero axioma da vida [validado pela intenção] como se tudo estivesse desprovido de pulsação, mantém a reavaliação de todo o enredo passado e desfavorita o sentimento iminente de um futuro possível. Ao passo que trafegar no entremeio das camadas imensas de vida permite que tenhamos acesso a um longínquo percurso in progress, o real afunda nesse mesmo espaço de troca. É típico de quem emborca dois litros de álcool (cachaça) de manhã. Tão peculiar. Remete a aspectos rituais de invocação em outros círculos de existência. Dá para notar nas mãos encaroçadas cheias de dutos sanguíneos dilatados vibrando forte debaixo do sol. O gorro enterrado na cabeça pressiona as orelhas de abano comidas e machucadas. Os olhos estão em chamas e atrás deles, lava. Enxergamos tudo por minúsculas fendas ingênuas horizontais guardadas por uma centena de fios ciliais protetores. O ser é inesgotável em termos descritivos e é irregular em sua vontade de fazê-lo. Os braços movem-se em concomitância esporádica com os estímulos mentais. Tudo aqui é governado por capítulos esponjosos construídos em cima de redes virtuais entrelaçadas.     

2013


 

Prezados,

É com muita alegria que apresento a vocês meu segundo filho deste ano.
Ele chama 2013.

A obra tem 365 capítulos, cada um deles corresponde a um dia do ano de 2013.
Ao todo são 414 páginas de texto e imagens sem um centro fixo.

Devo sua concepção a muita gente, na real foi uma verdadeira suruba.

Queria agradecer a Cássia Nunes (pela estrutura), Aline Mota (pela energia), Marco Alexandre Silva (pelo absurdo), Carlos Sekko (pelo suporte), Larissa Milano de Souza (pela revisão), Mariana Silva (pelo START), Edu Pacheco (pelos devires), Erlon Radl (pela rádio russa UVB-76), Fabio Neves Martins (pela 1ª leitura), Pedro Soares (pela cerveja no posto de gasolina) e mais uma cacetada de gente.

O livro logo estará disponível para quem sentir coceira. No momento os exemplares que tenho são para um fim bem específico: meu TCC.

Abraço

Pega ele, Nigel

Fig 1. Paga ele, Nigel

4. Novelty


3. A mão


1. A luta


$chave

..m

Fig. 467. Dog's bite.

 R[noise]ecuperando [flash]aquela…
Com[acute noise]o ela está[shhhhh]?
Nada [low noise] bem.
P[noise]or quê?
Entro[noise]u no meio d[noise]…[fadeout]
[fadein]enha até mim.
[fadein][noise][fadeout]
[scratch]você[shhhhh]
Po[noise]sso voltar com v[noise]ocê.
Nã[shhh]o é incômodo?[noise band]
[acutenoisephony]loucura.
Agora n[noiseatall]ão.
[clic][clic][noise]
Pobre Helena.
Tenh[noise]o muita pena dela[fadeout].
Pare feiquElena.
Sem[noise]pre teremos algo para o jantar.
[fadein]Ou não né.
O[noise]u não né.
Za[scratch]aaa.
[Noi[noise][fad[n[noise]oise]out]se]

SEQUÊNCIA NÃO FILMADA


(Defa)donho, escripto e repugna-nância. A literatura contemporânea suada gaùcha_mix com paulista se percebe enquanto grupelho, enquanto amigóide lusófano, bem funcional. Diurético solêmico. Reque-quebra portentoso por dentro, e por fora é o mesmo canto de sempre. Alunos a-bancados. Detrói’Buffalo. Pessoas mais velhas. Que ensinam outras. Baseando-se em-caixe mais do mesmo m-achado d’assis. Ou Druminnimond-do-eixo. Foge dali e vai direto para o fundo do mar-mar-Frio. Sol-que-te-pariu. Entranhas com títulos superbs. Grandiloquencilânimes no banco de recosto de troca de roupa de closet de mdf revestido com anigila branca com aspecto de mármore iluminado com luminárias estilo american 50’s lâmpadas inncannon frias halopatas. Escreve ali embaixo sem barulho atrás da nuca nem barumalúga no trovacalhado sustentoso rebenque. Escreve coisas outras que dificilmente encontra lugar dentro da gente, pois a gente, na maior parte do tempo, tem mania de repulsa. Repeleco. Entrega SEDEX12. Dentro da caixa você enviou você em 7 pacotes de tabaco. Bem na minha frente. No mercadológico de iguarias e frutas e milhares de coisinhas doces e piscoantes-piscodepois e corzinhas variando a cada milimetasegundo. Nem vou pagar essa entrega. Não é para mim. Não moro mais aqui. Avisa que eu mudei. Que eu transformei. Diz que é loucura tentar rastrear um laptop usando/com um GPS-pluto sem duque na faxinha. Pedregulho aberto à bala. Quilômetro e meio de fio de cobre enrolado em volta do pescoço espicaçalhando toda rede de trânsito.

Geradores de Sentido

Quando vejo John Baldessari queimando suas obras não penso na História da Arte. Penso no ato, desapegado, livre e provocativo. Enquanto seus amigos lançam suas obras na fornalha do crematório noto que John ri. É um riso de 1000 graus centígrados. Mas ele permanece firme, como um gigantesco orangotango da arte, barbudo e iconoclasta.

Dizem que a arte moderna nasceu da raiva e do ressentimento. Eu diria que a arte contemporânea foi gerada pelo senso de humor misterioso, confuso e ameaçador do conceitualismo. Uma das (três) correntes de pensamento de Henri Bergson, no ensaio Le Rie, de 1900, “focava a incongruência como catalisador essencial para o efeito cômico” (BEYER. 2007). Não seria, então, a incongruência – manifestada como o inverso do trivial – uma das muitas chaves para o entendimento da arte contemporânea?

Por que não podemos afirmar que exista um artista que personifique o projeto contemporâneo da mesma maneira que Pablo Picasso vestia o modernismo? A resposta é simples e está enraizada na ideia de pluralismo pós-moderno. Não existem universalismos possíveis em um mundo onde a arte se desorganiza em torno da diferença. Além disso, os pós-modernistas clamam que a arte não pode ser compreendida através de seus elementos formais, mas requerem também um entendimento do seu contexto cultural (EFLAND. 2005).

Se aplicarmos a teoria da incongruência de Bergson à arte contemporânea, poderíamos dizer que a arte conceitual, pré-arte contemporânea, consiste em instaurar modos não-conformistas de deslocar o mundo. Esse artista (pós-moderno) incongruente lança mão de preposições a cerca da realidade reinventando-a através de métodos narrativos não-lineares. Isto nada mais é do que a essência da arte conceitual. Por mais que não tenhamos permissão de utilizar a palavra ESSÊNCIA, pois os pós-estruturalistas nos queimariam vivos na fogueira da impermanência.

Assim, a elasticidade e a flexibilidade da linguagem, com o auxílio de truques que invertem os significados e transpõem os sentidos, possibilitam um ataque direto às bases estabelecidas da lógica à rigidez cotidiana. Isto quebra o senso de direção tradicional do observador obrigando-o a participar do processo pensando. Neste ponto, às objeções dos modernistas já não fazem o menor sentido. Eles permaneceram imóveis tentando compreender o conceito da planaridade em um mundo dinamicamente hiperbólico.

Querido leitor, peço desculpas pelo pensamento tangencial, vamos voltar a John Baldessari. De certa forma ele pegou esse mundo hiperbólico, massivo e saturado de ícones e manipulou como uma criança manipula argila. Bateu nele, amassou e o agrediu em surras filosoficamente homéricas. Ele ensinou o alfabeto para vegetais como um exemplo de pesquisa antropológica, enquanto o vovô Duchamp se contorcia no caixão. Baldessari perseguiu a semiologia e a destrinchou, repetindo isso ad infinitum. A essa experiência, de destruição/recriação da linguagem, ele chamou de arte.

Os espectadores do senhor Baldessari deixam suas exposições aliviados. Todos seus anseios são amenizados quando olham para as galáxias de pontos coloridos e para os milhares de narizes e pensam, “ufa, eles ainda estão lá”. As repetições, as colagens e as apropriações estão lá, penduradas na parede dos white cubes do mundo. Como toda a boa e velha arte chata. Tudo bem, John não liga para isso, os fundos para sua batalha cool continuam entrando. Novas ideias aparecem, mas a ironia incongruente continua sendo o principal dispositivo do arsenal.

Uma retrospectiva de John merece destaque, Pure Beauty (Beleza Pura), realizada entre 13 de outubro de 2009 e 10 de janeiro de 2010, no templo britânico da arte, Tate Modern. Durante 3 meses, 30 anos de sua produção foram expostas. Havia de tudo, de foto-montagens a vídeo-documentos, textos publicitários alterados e figuras removidas de pinturas clássicas. Para John, tudo pode ser manipulado e incorporado. Tudo pode ser criticado, fragmentado e revirado. O mundo é seu playground onde todas as babás foram assassinadas.

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Referências

BERGSON, H. O Riso. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BEYER, V. Limits And Laughter. The Comedy of Lenny Bruce and Andy Kaufman. Univ. Duisburg-Essen, 2007.
EFLAND, A. D. Cultura, sociedade, arte e educação num mundo pós-moderno. in: GUINSBURG, J.; BARBOSA, A. M. O pós-modernismo. São Paulo: Perspectiva, 2005.

Bookeeping # 1

Bookeeping. India ink on paper. 2013

sem título

sem título | Mixed Media on paper | Jan. 2013.