Pega ele, Nigel

Fig 3. Pega ele, Nigel.

2013 / Capítulo 64


100h

Você dorme uma noite inteira de sono. Acorda aceso como uma tocha. Como uma lâmpada. Você repete cem vezes o mesmo erro. Você erra tanto que não entende mais se existe algo certo ou errado. Você dorme cem vezes a mesma noite e erra cem vezes do mesmo jeito. Quando desperta você percebe que o mundo é a invenção de cem sonhos. Você acorda e da mesma forma que uma lâmpada que pisca cem vezes você dorme. Sempre uma noite de cada vez até a centésima noite – a última. Quando percebe que não há sonho nesse sono você é trazido de volta para dentro de outro sono. Tudo se parece com cem despertares, com cem noites mal dormidas. Daí você escova os dentes depois de quase doze horas dormindo um sono grosso. Intensas doze horas sem pregar o olho. Ruminando sobre uma vida repetida que erra. Diante desses códigos tranquilizadores ativados por cerca de cem horas trabalhando sem parar você vomita um sonho morto. A lâmpada inventa a sincronia de uma vida. Conforme acende e apaga define quem você/nós é/somos. Durante o sono a lâmpada já acendeu e apagou bem mais do que cem vezes. Talvez um milhão de vezes. Você sonha acordado que uma vida errante escorre pelos seus dedos como água da chuva. Você analisa os vestígios de cem dias encapsulados na vida. É noite. Enquanto você dorme você morre cem vezes um dia de cada vez depois todos ao mesmo tempo até agora.

KAOS #1


Kaos é um zine-laboratório, onde experimentos visuais_textuais têm um assunto dedicado [motto] a cada edição. Kaos é também um ensaio que flerta com o nonsense mas se deseja significante, mesmo que a nível subconsciente. Os autores desenvolvem trabalhos nas mais variadas plataformas, e buscam aqui um ponto de convergência literário para suas desacomodações espirito-filosóficas.

Produzida por Fabiano Gummo, Marco Silva e Lúcio Manfredi, KaoS é a primeira  publicação da microeditora verbovisual RUÍDO.

SUBMEN

Photo by © Carlos Ferreira

(sem assunto)

Por favor, eu preciso de sua ajuda meu marido depositou 7,5 milhões de libras com um banco quando ele estava vivo. Eu estou sofrendo de câncer de esôfago, você pode me ajudar a dublê como meu beneficiário e recolher fundos para financiar organizações de caridade.

Pega ele, Nigel

Fig 2. Pega ele, Nigel.

Atrocidades Modernas

Eu li sobre o apocalipse durante o último final de semana do verão de 1997. A cada página meu coração soluçava apresentando diversas alterações eletrocardiográficas. Era um esforço anormal virar as folhas. O romance em questão se chamava “Atrocidades Modernas”, de Paulo Becker, e certamente não agradou a crítica especializada, muito menos aqueles desinteressados em rocamboles narrativos desfigurados livremente.

Mesmo assim, alguns leitores vorazes toparam criar um grupo de leitura e me convidaram para fazer parte. Achei ok e aceitei. Eu não tinha nenhuma razão para não me engajar nessa atividade. Além disso, eu considerava o livro especial e queria muito me aprofundar nas ideias do autor. Dessa forma, digamos, eu explicitamente entrei para o grupo “Atrocidades Modernas”.

Segue um grotesco excerto do livro:

“Quando uma fórmula considerada hipoteticamente verdadeira começa a ser escrita entendemos o que vem a seguir como sendo o resultado de uma matriz com sistema lógico baseado em um conteúdo e um discurso coerente. Isso quer dizer que estamos andando ao redor de colunas conceituais de pura elegância e rigor. Assim, dentro desse plano perspectivo, e com esse tipo de linha argumentativa como aríete, estamos prontos para desvendar o mundo real, natural e físico. Nossas ferramentas, então, são a lógica, a razão e a coragem. Como dizia o ancestral humano, “um mergulho no lago naturalista não pode e não deve nos desanimar”. Somos protagonistas dessa História. Temos o poder de domá-la através de nossa retilínea perseverança. Da mesma forma que o fio da navalha fatia a carne, o verbo segrega a vida em dois planos de existência prospectando ambos em direção a uma nova e terceira existência. Esse verbo Gilette atua contra a falácia na intenção de romper a barragem que bloqueia a visão. Sabemos que essa lâmina é capaz de dividir o átomo tamanha sua potência destruidora. Entretanto, também, é capaz de atrair e agregar bilhares de naturezas e seres humanos, pois em nossos corações não há mais espaço para o metafísico nem, no obstante, para o transreal. Encaramos tudo como irrelevante quando optamos pelo processo seletivo baseado na competição. Gostaria de finalizar dizendo que a deslogicização de nossa sociedade manifestada na vultuosa e desvairada soma de medos, não deve nos assustar, tampouco deve causar perturbação. Ao contrário, ela deve ser dilacerada pelo o fio da espada e esmagada pela pureza infinita do que é Serto.”

No lábio de lebre há potência

c/ bigode

Júpiter do Cronenberg


LIVRO/indício #4



A sensação aquela, do mero estável e do lado inverso, de várias vidas sobrepostas requer paciência, pois sofre para estabelecer uma relação já morta. Esse tipo de estratégia, de re-e-encenar um indigesto mortífero axioma da vida [validado pela intenção] como se tudo estivesse desprovido de pulsação, mantém a reavaliação de todo o enredo passado e desfavorita o sentimento iminente de um futuro possível. Ao passo que trafegar no entremeio das camadas imensas de vida permite que tenhamos acesso a um longínquo percurso in progress, o real afunda nesse mesmo espaço de troca. É típico de quem emborca dois litros de álcool (cachaça) de manhã. Tão peculiar. Remete a aspectos rituais de invocação em outros círculos de existência. Dá para notar nas mãos encaroçadas cheias de dutos sanguíneos dilatados vibrando forte debaixo do sol. O gorro enterrado na cabeça pressiona as orelhas de abano comidas e machucadas. Os olhos estão em chamas e atrás deles, lava. Enxergamos tudo por minúsculas fendas ingênuas horizontais guardadas por uma centena de fios ciliais protetores. O ser é inesgotável em termos descritivos e é irregular em sua vontade de fazê-lo. Os braços movem-se em concomitância esporádica com os estímulos mentais. Tudo aqui é governado por capítulos esponjosos construídos em cima de redes virtuais entrelaçadas.     

2013


 

Prezados,

É com muita alegria que apresento a vocês meu segundo filho deste ano.
Ele chama 2013.

A obra tem 365 capítulos, cada um deles corresponde a um dia do ano de 2013.
Ao todo são 414 páginas de texto e imagens sem um centro fixo.

Devo sua concepção a muita gente, na real foi uma verdadeira suruba.

Queria agradecer a Cássia Nunes (pela estrutura), Aline Mota (pela energia), Marco Alexandre Silva (pelo absurdo), Carlos Sekko (pelo suporte), Larissa Milano de Souza (pela revisão), Mariana Silva (pelo START), Edu Pacheco (pelos devires), Erlon Radl (pela rádio russa UVB-76), Fabio Neves Martins (pela 1ª leitura), Pedro Soares (pela cerveja no posto de gasolina) e mais uma cacetada de gente.

O livro logo estará disponível para quem sentir coceira. No momento os exemplares que tenho são para um fim bem específico: meu TCC.

Abraço

Pega ele, Nigel

Fig 1. Paga ele, Nigel

4. Novelty


3. A mão


1. A luta


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